Memórias da Copa: Amarildos
Do bicampeonato ao 7x1: nem todo Amarildo é tratado como herói nacional

Estreou na quarta-feira (4) a série "Memórias da Copa" na coluna Brasil Visceral, no Desinformémonos. Com a Copa do Mundo se aproximando para México, Canadá e EUA, vemos alguns dos principais problemas enfrentados aqui no Brasil em 2014 se repetirem, especialmente para os irmãos mexicanos. Por isso, decidi contar algumas das histórias que perpassaram as mobilizações contra a realização do mega evento por aqui. As versões em português da coluna estarão disponíveis por aqui, no ERROZiNE.
Quem conhece o futebol brasileiro após 1994 ou 2002 não consegue imaginar toda a sorte de frustrações que a Canarinho passou antes de tornar-se a camiseta mais vencedora do planeta. E a principal dessas frustrações aconteceu justamente em 1950, quando o país sediava a Copa do Mundo pela primeira vez. Derrotado pelo pequeno (e poderoso) Uruguai, o Brasil mergulhou em profunda tristeza.
Há um célebre relato de Eduardo Galeano em ‘Futebol ao sol e à sombra’, de que o capitão uruguaio Obdúlio Varella, saindo pelas noites do Rio de Janeiro, teria ficado constrangido com a tristeza que ele próprio (com seus companheiros) produziu ali. Ao invés de comemorar, preferiu beber com os derrotados.
Mas o futebol brasileiro soube aprender com a derrota e nos anos subsequentes formou a geração que venceria os primeiros mundiais, a começar pela histórica goleada na final de 1958 contra a anfitriã Suécia. O título teve como principal destaque um jovem de 17 anos chamado Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. Era a redenção brasileira após o Maracanazo imposto pelos uruguaios.
Amarildo herói nacional
Quatro anos depois a Copa seria no Chile e era preciso defender o título, mas Pelé, aos 21 anos, se machucou ainda na fase de grupos, no segundo jogo do torneio, diante da Tchecolosváquia. O duelo terminou empatado e sem gols.
A partida seguinte contra a Espanha era questão de vida ou morte e a substituição do Rei Pelé era um verdadeiro drama nacional transmitido (quase) ao vivo pelo rádio. Quem acompanharia craques como Garrincha, Vavá e Zagallo? E após muita discussão, a decisão foi por Amarildo, atleta do Botafogo.
Marcou dois gols contra os espanhóis, virando o jogo e classificando a seleção brasileira.
O Brasil então venceu Inglaterra e Chile sem gols de Amarildo (Vavá, Zagallo e Garrincha se encarregaram dos tentos), chegando a final em nova partida contra a Tchecolosváquia.
Os adversários do lado de lá da Cortina de Ferro marcaram o primeiro gol da partida, mas Amarildo estava em campo para empatar a decisão e dar tranquilidade para a seleção brasileira. Zito e Vavá se ocupariam de marcar os gols que trariam a virada e o segundo mundial ao Brasil. E Amarildo se tornava um herói nacional junto com seus companheiros. Mas nem todo Amarildo tem a sorte de ser tratado como herói nacional.
Outro Amarildo
Precisamente um ano antes da final da Copa do Mundo de 2014, a segunda recebida pelo Brasil; no mesmo Rio de Janeiro onde Alemanha e Argentina duelaram; e a cerca de 15 quilômetros do Maracanã, o pedreiro Amarildo Dias de Souza desaparecia na Favela da Rocinha, a maior do país à época (hoje superada pela Sol Nascente, em Brasília).
Sétimo entre doze irmãos, seu pai era pescador e sua mãe trabalhava como empregada doméstica nas casas dos ricos. Analfabeto, só sabia escrever seu próprio nome e começou a trabalhar aos 12 anos vendendo limão nas ruas. Vivia com sua esposa Elisabeth Gomes e seus 6 filhos numa casa de um cômodo.
Chamado de “boi” na comunidade, era conhecido pelos vizinhos por ser alguém que trabalhava demasiado. Ele era nascido e crescido na Rocinha.
Operação Paz Armada
Aqueles eram os tempos em que o progressismo – estávamos no primeiro governo Dilma Rousseff (2011-2014) – prometia “pacificar as favelas” sob a luz do “humanismo” e dos “direitos humanos”. Também era a época dos grandes investimentos em megaeventos que traziam, à reboque, a remoção de dezenas de comunidades em todo o país para atender às exigências da FIFA. O início do programa das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) e o anúncio do Brasil como sede da Copa e das Olimpíadas não coincidem por acaso. Ambos ocorreram entre 2007 e 2008.
As UPPs eram instaladas em favelas e comunidades do Rio de Janeiro tidas como “espaços perigosos dominados por narcos e facções criminosas”. Além das obras públicas para a construção do espaço físico das UPPs dentro dos territórios (e toda a infraestrutura público a ele necessária), ainda se fazia dinheiro com treinamento, equipamento e formação em direitos humanos, afinal, o principal objetivo dos progressistas era resolver três problemas de uma só vez: barrar o crescimento das organizações criminosas e reformar a polícia, preparando-a, simultaneamente, para lidar com os grandes eventos que viriam.
Afinal de contas, sobram os pobres que espantam os turistas endinheirados. Eles precisavam ficar na linha. E operações eram feitas, seja em manifestações no centro, seja nas favelas, já em preparação para a Copa.
Nesse contexto, entre 13 e 14 de julho de 2013 ocorreu na Rocinha a Operação Paz Armada, levando mais de 300 soldados da Polícia Militar (PM) ao território. 30 pessoas foram presas, incluindo Amarildo, que chegava de uma pescaria. E nunca mais voltou para casa.

Cadê o Amarildo?
Na imprensa era possível ver o discurso oficial do Estado: Amarildo teria ficado preso na UPP por cerca de 24 horas e depois teria sido liberado, já que os policiais teriam constatado que ele não era um criminoso. O problema é que nunca mais foi visto depois da suposta soltura. Nem pela esposa, nem pelos filhos que dependiam dele, nem pelos vizinhos que o conheciam por trabalhar muito. Ninguém sabia dele. Cadê o Amarildo? Sumiu. Desapareceu.
Elisabeth contou aos meios de comunicação que Amarildo foi detido às 19h45 do dia 13 e assim teve de esperar até a manhã do dia seguinte para que ele fosse liberado. Disse que voltou ao posto da UPP e o Major Edson Raimundo dos Santos – ex comandante daquela unidade – disse que havia acabado de soltá-lo próximo a escadaria do Portão Vermelho. Na manhã seguinte, nada do Amarildo. Ela buscou pelo marido em delegacias e hospitais próximos. Nada.
A revolta em torno da situação de Elisabeth fez com que vizinhos mobilizassem a Rocinha na campanha “Cadê o Amarildo?”, que rapidamente ganhou a adesão em todo o país – que estava em chamas devido às revoltas populares iniciadas um mês antes, em junho de 2013. Não demoraria para que manifestações pedindo uma solução para o desaparecimento de Amarildo chegassem a outros países de Abya Yala, na Europa e nos EUA.
Ferida aberta
Segundo as investigações, após Amarildo ser solto pela UPP, cruzou com policiais que convenientemente o “confundiram” com um narcotraficante do bairro e então o teriam torturado e matado. Mas pouco podemos confirmar a esse respeito, pois as câmeras de segurança do posto policial estavam desligadas durante a Operação Paz Armada, assim como os GPSs dos agentes.
Um tipo de “confusão” e de “erro de procedimento” que demonstra uma série de coisas. A primeira delas, não nessa ordem: o fracasso do modelo de polícia pacificadora. A segunda: como o racismo opera no Brasil na forma de uma tecnologia para controle de populações e territórios. E há muitas outras conclusões que podemos chegar a partir do caso Amarildo.
Um ano depois, quando a bola rolava para Brasil x Croácia, Elisabeth e seus filhos ainda estavam sem Amarildo. Ele estava presente apenas nos cartazes que reivindicavam sua memória nas ruas e vielas.
Anos depois os policiais acusados pelo seu desaparecimento eram condenados em Corte Federal (STJ) a penas de até 16 anos de prisão e indenizações eram discutidas aos familiares. Mas nada disso foi suficiente para reparar a ausência de um pai, marido e vizinho querido pelos seus. Nem para curar as marcas da violência organizada pelo próprio Estado.
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