LANÇAMENTO - ERROZINE 04
Do protesto urbano ao território: Centro de Cultura Social, anarcopunk e Semente Negra + Entrevista com Josimas Ramos (ex-Execradores/Água/No Gods No Masters) + Festival Cultive Resistência 2026
Superamos a maldição dos fanzines, segundo a qual as publicações não ultrapassam a terceira edição - e está oficialmente lançada a quarta edição do ERROZINE!
ERROZINE: fanzine impresso e aperiódico derivado dessa singela newsletter. São 20 páginas em preto e branco montadas sobre 5 folhas A3 xerocadas e em diagramação inspirada no lendário fanzine gringo Profane Existence. Toda as edições trazem uma entrevista de capa, com uma figura interessante e relevante ligada ao punk - tanto sob um ponto de vista cultural/musical, como social, além de artigos exclusivos relacionados ao tema, fotos e artes.
Nesta nova edição - a primeira de 2026 - trazemos na pauta a importância de cultivarmos espaços livres e territórios autônomos para criarmos, por nós mesmos e com as nossas comunidades, horizontes de vida e luta mais interessantes num mundo cada vez mais opressor.
A edição é dividida em quatro partes.
Na primeira parte, “Do protesto urbano ao território: Centro de Cultura Social, anarcopunk e Semente Negra”, recontamos a história do Centro de Cultura Social de São Paulo (CCS), grupo de difusão de saberes anarquistas fundado em 1933 e ainda em atividade (com sede no centro de SP). Além de ter sido um importante ator, historicamente falando, na sobrevivência das ideias (e pessoas) anarquistas a duas ditaduras, também ficou marcado pela sua relação com a cultura punk e a formação do que ficou conhecido como “anarcopunk”. Falamos sobre a importância de figuras como Jaime Cubero e contamos como os anarquistas usaram um pequeno sítio para driblar as repressões de duas ditaduras.
A edição também traz uma entrevista com Josimas Ramos (ex-Execradores/Água/Semente Negra/No Gods No Masters), que viveu esse encontro entre punks jovens e vovôs anarquistas na virada dos 80 para os 90, e que hoje está à frente do Espaço Cultural Semente Negra, um espaço anarquista e punk em Peruíbe (SP) onde realiza uma série de atividades em parceria com as comunidades vizinhas, incluindo a Terra Indígena Piaçaguera.
A última parte do fanzine faz um apanhado da cobertura que fizemos do Festival Cultive Resistência 2026, realizado dentro do Semente Negra.
E como não podia faltar, um pouco de arte também é sempre bom. Nas páginas 10 e 11, centrais, você encontra um baita pôster do LAIDEA - artista gráfico de BH ligado à Kasa Invisível - sobre o tema da edição: Ocupe o mundo!
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Leia alguns trechos da entrevista com Josimas Ramos
“O punk não surgiu em um lugar, ele foi explodindo em vários lugares. E em alguns lugares o punk explodiu sem nem ter conhecimento de outro punk de outro lugar do mundo. Era um movimento que ia explodir mesmo, e isso traz uma diversidade muito rica e muito boa. Acho que a diversidade construiu o punk e por consequência o anarcopunk”.
(…)
“Acho que o anarcopunk tinha essa proposta de caminhar pro anarquismo e se inspirar em comunidades. Então fomos procurar quem era a comunidade anarquista local, quem estava falando de anarquismo, quem já viveu essas lutas, e queríamos aprender com os mais velhos. Então olhamos para o Centro de Cultura Social (CCS) retornando da clandestinidade, e eles já tinham história para contar, livros que a gente queria ler e começamos a frequentar. E aí é toda uma história quando a gente chegou lá falando que nós somos anarquistas. Teve gente que respondeu: quem falou que vocês são anarquistas? (risos). E nós, punks jovens, batemos no peito: Nós falamos que nós somos anarquistas”.
(…)
“A gente tinha um calendário enorme de manifestações que começava com o Dia da Mulher em 8 de março, aí depois vinha em agosto o ciclo antinuclear, logo na sequência em setembro o ciclo antimilitarista e, por último, a farsa natalina, pegando o caráter comercial do Natal para falar sobre anticapitalismo(…) E com todo o crescimento dessa discussão apareceu um menino que ainda ia se alistar e nos disse que gostaria de ser um objetor de consciência. Ficamos um tempo discutindo sobre isso, entendendo o que a gente precisava fazer para que ele não fosse preso ou alguma coisa do tipo. Também vimos que não existia objetores de consciência de tipo político na história no Brasil. Tinha gente que não queria servir por N motivos, mas não por objeção de consciência. Esse companheiro foi o primeiro, mas a gente tinha organizado um aparato ali, com advogado e tal. Inicialmente o exército falava que “tudo bem se ele não quiser servir”. Mas a gente dizia que não era só isso, a gente queria que constasse o porquê ele não queria servir. O motivo é mais importante do que tudo e a gente queria que isso ficasse registrado, mas eles não queriam registrar…”
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“A TI Piaçaguera é um território que tava em processo de retomada. É um território que teve diversas vezes na mão de espólio, de empresas, expulsando suas famílias. E no ano 2000 eles fizeram a última retomada, voltaram com as famílias. Em 2012 foi quando a gente foi convidado pra estar junto com elas. Dentro de uma coisa da ocupação do território e do fortalecimento das famílias. Fazemos de construção de casas a suporte jurídico, construir escola, conseguir acesso à saúde, dar suporte para quem está em depressão, se tem famílias passando fome, vamos atrás de comida ou de grana para comprar comida... já construímos três aldeias do zero. E isso trabalha com a valorização da comunidade, com a autoafirmação deles. São 13 comunidades que antes viviam escondidas e hoje gritam no território: ‘estamos aqui’”
Leia alguns trechos do artigo sobre o Centro de Cultural Social
“Fundado em 1933, o CCS-SP funciona desde então como um espaço físico de difusão dos saberes e experiências anarquistas, que já acumulavam décadas de lutas no Brasil e no exterior na data de fundação. Com a chegada do Estado Novo, de Getúlio Vargas, e sendo os anarquistas um dos seus principais alvos, era necessário sair de perto dos holofotes. Nesse momento foi criada o Nosso Sítio, um espaço rural, mais afastado da cidade de São Paulo, onde seria possível manter um pequeno foco de educação, formação e informação em meio àquela ditadura.”
(…)
“Falando sobre o caso paulistano, o movimento anarquista é relevante por ter sido o responsável pela primeira greve geral de trabalhadores registrada no Brasil, em 1917. Àquela época, homens, mulheres e crianças passavam até 14 horas diárias trabalhando nas fábricas de São Paulo. A greve foi uma revolta popular contra esse estado de coisas e acirrou um ciclo de lutas que já durava algumas décadas desde a fundação dos primeiros sindicatos, associações e centros de cultura anarquistas na capital paulista. A greve de 1917 se alastrou para o Rio de Janeiro (capital do país) e outras cidades, catapultando um ciclo de lutas que só seria pacificado nos anos 1930 com a chegada de Getúlio Vargas ao poder, seja pela repressão do Estado Novo, seja pela criação da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). Nas escolas nos ensinam que Getúlio “deu” a CLT aos trabalhadores, mas a realidade é que ela só foi possível graças a todo o acúmulo anterior de lutas que tinha nos anarquistas a sua ponta de lança.”
(…)
“Para Jaime Cubero, o anarquismo era também uma atitude ética e um modo de ser no mundo, e para isso necessitava de exercícios, de lugares de experimentação dessa forma não hierárquica de existência. É aí que entram os centros de cultura, que se inscrevem numa tradição mais ampla dos Ateneus. “Ser anarquista é, antes de tudo, uma atitude ética. Ante a iniquidade, um ímpeto de justiça leva o anarquista a romper racional e afetivamente com o sistema vigente. Romper com a autoridade é afirmar a própria independência humana. Ser anarquista é procurar realizar no cotidiano a plenitude do ato humano, e o ato humano só o é quando é livre. Fundado na vontade, no conhecimento dos fins e no poder de realizá-los. Contra todo viciamento do ato humano, a luta anarquista não tem limites”, escreveu.”
(…)
“O Nosso Sítio manteve até a metade dos anos 90 a fachada de uma simples chácara familiar. Longe dos holofotes, durante os anos de chumbo dava apoio a indivíduos perseguidos pelo regime e mantinha vivas a imprensa e a educação anarquistas. As ditaduras vão, os anarquistas ficam. E, na metade dos anos 80, o CCS reabriu em São Paulo. Está lá até hoje e provavelmente terá alguma atividade na mesma semana em que você ler esse artigo.”
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