“Punk incomoda?”
A história de Helô Knup, do interior de Santa Catarina para o mundo sem dar passo atrás; e da sua nova banda, a Carne Morta, que marcou presença no Festival Cultive Resistência 2026

Você está andando na rua e, sem nem se dar conta, tropeça num punk. Dizem que a primeira vez em que todos nós vemos um punk é assim. Aleatória, marcante, reflexiva. E que depois ficamos pensando “cara, o que é isso?”. Bem, eu não lembro a minha primeira vez, o meu avistamento zero dessa controversa espécie de nossa fauna urbana. Cresci em São Paulo e a espécie não era lá uma raridade entre os anos 80 e 90. Mas você talvez se lembre do seu primeiro punk. Em todo caso, é assim que começa a história de hoje.
Estamos em São Bento do Sul, nos anos 1990. Uma cidadezinha bem pequena do Planalto Norte de Santa Catarina, conhecida por abrigar muita gente oriunda da imigração alemã que tomou a região cerca de um século atrás. Uma cidade que não precisamos de grande esforço pra saber que se trata dum lugar bastante conservador. Contudo, não há conservadorismo que vença a curiosidade de uma criança. A criança é sempre mais forte, e por isso o adulto (ou o Estado) sentem a necessidade de domesticá-la.
Nessa cidade, há muito tempo atrás, uma escola local fazia um passeio com várias das suas crianças pelo centro, a fim de conhecer museus e lugares históricos. Mas havia dois punks num calçadão. Um carregava seu painel com brincos, anéis e artesanatos. Não despertou tanto a curiosidade das crianças. O outro, no entanto, apagou o passeio escolar.
O compa em questão fazia uma performance de Devil Stick. Modalidade de malabarismo em que o malabarista utiliza duas varetas pequenas para manusear uma terceira, maior. Eventualmente incendiada nas pontas. É uma das modalidades de malabarismo mais presentes nas ruas das grandes cidades e muito performada por gente oriunda da cultura punk.

A criançada estava em estado de “UAU!” Admiravam aquele punk muito esquisito, quando ele de repente se dirigiu a elas.
“Posso fazer uma pergunta pra vocês?”, perguntou. E em uníssono a criançada disse que “siiiiiim”.
“Punk incomoda?”, perguntou o homem.
As crianças receberam a pergunta, se entreolharam e responderam, novamente em uníssono: “nããããão”.
Aí o punk, esperto, retrucou: “leva a gente pra casa, então”!
“Foi primeira vez que eu vi um punk na minha vida. Ele tava mangueando uma hospedagem, um banho, uma comidinha. E aí, desde aquele dia, eu fiquei com isso na cabeça”, conta Helô Knup, baterista da banda Carne Morta e vocalista da Lamento. Ambas as bandas se apresentaram na última edição do Festival Cultive Resistência, no Espaço Cultural Semente Negra, em Peruíbe (SP), em abril.

Ambas as bandas também lançaram trabalhos recentemente. A Lamento, potente banda crust, teve seu primeiro trabalho - o EP Handala (2025) - lançado em vinil no ano passado por diversos selos. A Carne Morta, por sua vez, é ainda mais recente: lançou sua primeira demo, que leva o nome da banda, de forma virtual no início de 2026. Mas Helô não chegou agora. Está nas ruas e estradas já faz algum tempo.
A seguir, você lê a entrevista que fizemos com a Helô na manhã seguinte ao show com a Carne Morta e antes de tocar com a Lamento. A entrevistada contou um pouco da sua história de vida e falou sobre a banda nova.

Depois de ver um punk pela primeira vez, como foi a sua entrada na cultura punk?
A curiosidade me fez ir atrás de livro didático sobre o assunto, sobre tribos urbanas, porque não tinha informação disponível. Cidade grande e capital é uma coisa, cidade pequena do interior é totalmente diferente. A única coisa que tínhamos era a praça onde os roqueiros da cidade se reuniam para tocar.
E aí tinha uma galera que manjava de som e eu comecei a achar interessante, comecei a ler e ir atrás. E eu sempre fui, desde a adolescência, metida em grêmio de escola, fui do movimento estudantil secundarista e tal. Com essa coisa de lutar pelos direitos, passe livre, contra o aumento da passagem, enfim, essas coisas. E aí vieram o socialismo, o punk, o anarquismo, e entrei nessa coisa de ler, montar o visual, de cortar o moicano a primeira vez. Foi aí que o mundo se abriu.
A minha principal angústia quando eu morava lá era o seguinte: o que eu vou fazer da minha vida? Porque as pessoas que me rodeavam, as minhas amigas, tinham uma vida muito programada. Elas iam estudar, arrumar um trabalho, arrumar um companheiro, ter filhos, e essa era a vida. E eu ficava me questionando: a vida não pode ser só isso, né? Devem ter mais coisas por aí, eu pensava. Mas eu não sabia que podia sair de lá pra viver essas coisas, então só ficava com essa angústia mesmo.
Foi quando vim pra São Paulo, pra Guarulhos, eu tinha uma namorada que morava em Guarulhos, e vim pra ficar perto dela e tal. Mas um belo dia uns amigos de Lages (SC) me escrevem falando que ocuparam uma casa e iam fazer um squat, uma moradia, com atividade. “Você tá afim de participar?” Demorou, eu respondi.

Era o Squat Guamirim de Maio, foi o primeiro lugar que eu morei e conheci gente muito foda. Porque até então eu não sabia que anarcopunk era um movimento, eu achei que anarcopunk eram punks anarquistas, sabe? Aí eu juntei minhas coisas, meus panos velhos e falei: “mano, eu quero viver as coisas que eu acredito, que eu leio nos livros, nos zines e tal. Não quero ficar só tendo uma vida comum”. E foi muito foda, porque eu conheci gente muito diferente. Eu já não comia carne, mas foi a primeira vez que eu conheci uma outra pessoa vegana, que foi o Kel, que é um amigo meu maravilhoso.
Gente diversa, som, leitura… Tive acesso aos clássicos, como Bakunin e autoras do feminismo, e isso foi muito fortalecedor. De lá pequei um mochilão e saí por aí. Morei em vários lugares do Brasil, fui pra Córdoba (ARG), pra Buenos Aires, pro Uruguai, viajando com uma banda que eu tinha com um parceiro. Vivendo nos squats, ajudando a construir, morei na Okupa 171 também, lá em Pelotas - que ainda resiste. Enfim, fui construindo essa bagagem, fui vendo coisas diferentes, vendo o corre de cada um, em qual frente a galera atua... E, bom, essa é a minha história dentro do punk. E tô aí até hoje, né? Não era uma fase.
Acho que eu não acredito nisso de ser fase. Acho que a realidade está aí pra gente se deparar. Não dá pra ficar isento e não fazer nada conosco, ou com a nossa comunidade. Precisamos nos cuidar e se relacionar de forma diferente, pra além dessa coisa fria e utilitarista que jogam nas nossas caras.
Carne Morta
Quando eu morei em São Luís do Maranhão, conheci o Dave Campelo, que é o guitarra. O baixista também é de lá, o Eduardo Boro, eles se conhecem há bastante tempo e agora moram em São Paulo. E aí o Dave organizou uma feira anarquista em São Luís, eu estava lá e fui vender rango. Vender umas coxinhas, um bolo de chocolate e tal. E nos conhecemos, mas a gente não se falou muito ali.
[Perguntado, Dave disse que estava numa ressaca danada e que comprava as coxinhas veganas como remédio para as consequências do álcool; por isso não conseguia trocar muita ideia. “10 anos depois achei Helô lá na frente da estação Ana Rosa sentada, e quando nos olhamos foi tipo rever a família. Daí pra frente fomos a família um do outro aqui em SP”, disse]
Anos depois que eu me mudei, estava na rua e ele apareceu com um outro cara. Eu falei, “oxe, o que você tá fazendo aqui?” Aí ele: “pô, eu moro aqui”. Não sei te dizer o que aconteceu, mas a gente não se desgrudou mais. Ele é meu melhor amigo.

A gente tá junto desde então. A gente já teve outra banda, que era a Vida Todo Um Quase. E a gente tocou durante um tempo e aí a pandemia veio e fez a gente começar do zero, né?
Nos sete anos que eu morei em São Paulo fiquei nessa coisa do trabalho, né? Eu sou formada em gastronomia e São Paulo te exige muito. E eu comecei dois trampos, trampei no Panelaço também. Era um trampo até as cinco, outro trampo das seis até a uma. E… Foi massa, aprendi muita coisa. Foi muito importante, mas eu tava esquecendo o resto, né? Daquilo que me torna viva, que me faz ter vontade de viver.
Depois de um tempo consegui um trabalho mais tranquilo, com tempo para me organizar. E nessas percebi que precisava voltar a tocar. Porque tocar um instrumento é muito libertador. O seu corpo se expressa, né?
E aí o Dave me convidou pra tocar de novo. Disse que estava a fim de fazer umas musiquinhas assim e assado, sabe? Eu topei e aí surgiu a banda.

Aí primeiro o Léo, que era um brother nosso que tocou no A Vida toda um Quase, foi tocar baixo com a gente, mas ele não conseguiu ficar. Então convidamos o Eduardo e tem dado super certo. A gente tem uma dinâmica muito boa.
Pra além de qualquer coisa, somos amigos. E a gente faz o som pra nós mesmos. É para nos divertir, e no sentido de compartilhar com as pessoas. Fizemos a princípio seis músicas, as gravamos e lançamos no início do ano numa demo que leva o nome da banda, Carne Morta.
Agora a gente tá na fase de compor mais pra fechar o set. E pra gravar mais. A ideia é tocar, conhecer gente, trocar…
E essas seis músicas, do que elas falam?
Cara, o Dave é muito bom letrista. Como a gente tá mais velho agora, o Dave tá com quase 40, e eu tô na casa dos 30, a gente conversa muito, sobre tudo. E as letras têm muito das nossas reflexões. Por exemplo, sobre como fomos ingênuos em pensar que a gente ia mudar o mundo. Mas que, na verdade, a gente não muda o mundo. A gente muda o nosso mundo. A gente muda o entorno da gente. E que isso tá massa também. E é difícil.
Não é porque a gente não vai conseguir mudanças estruturais. Não é porque a gente não vai conseguir mudanças significativas que não podemos fazer alguma coisa por nós mesmos, né? Que é isso que eu tava te falando, de criar relações diferentes entre nós. Pra além daquela coisa trivial, fria e distante. Então as músicas falam sobre isso.
Principalmente sobre essa desgraça que acontece em volta da gente. Como olhamos pra isso, percebemos isso, nos indignamos com isso. Mas também na luta interna para não deixar que matem o que a gente tem de bom, que não é necessariamente a esperança, mas a vontade de lutar. Porque talvez a gente não ganhe essa batalha, mas tá tudo bem. O importante é lutar até o fim. Não tem outra maneira de existir. Desistir não é uma opção.
Pra fecharmos essa conversa sobre as trocas, o ver coisas diferentes e o conhecer gente diferente, qual a importância de um festival como o Cultive Resistência na sua opinião?
É absolutamente fundamental nessa coisa de agregar gente nova com pessoas mais velhas. E fazer essa renovação. Porque cada tempo que passa a gente se depara com novas lutas. Ou velhas lutas, mas com uma roupagem diferente.
Hoje em dia, por exemplo, a gente tem muito mais tecnologia, muito mais ferramentas de repressão, muito mais coisas pra lidar do que década de 90 (um dos debates do festival teve esse tema como pauta). Então, eu acho foda esse festival. É uma coisa linda, assim. É muito foda que isso aconteça há tanto tempo. A primeira vez que eu estive no festival foi em 2014, quando era em Itanhaém.
É importante para que a gente possa ver iguais, se reconhecer nas pessoas. Aquele sentimento de que você não está sozinho. Porque às vezes a gente está no meio da cidade, naquela rotina e tal, e você para e pensa: “nossa, só eu penso assim?”. Só que quando você se encontra com gente que está alinhada contigo, vê que não está só. A gente está espalhado, mas estamos juntos.
E precisamos estar juntos para desenvolver várias coisas que são melhores para a nossa vida, como esses valores de compartilhar, de se relacionar de forma diferente, de como ser e estar no mundo.

O texto que você acaba de ler será editado para o ERROZiNE #4, o fanzine impresso que corresponde a essa newsletter. A edição traz, além de outras histórias como a de Helô, a cobertura completa que fizemos do Festival Cultive Resistência, além de artigos sobre a história da presença anarquista no movimento punk brasileiro, e vice-versa. Spoiler: não tem nada a ver com gringos ou com a tal “indústria cultural”.
Para saber mais e fortalecer a impressão do ERROZiNE #4, prevista para Junho, clique aqui. Todxs que colaborarem, obviamente, receberão os seus exemplares.
Se você mandar R$ 50 (anual) ou R$ 5 (mensal), vc garante o recebimento do seu ERROZiNE #4, e de um futuro #5 - além de ter seu nome, ou o do seu projeto, estampado nos agradecimentos.
Precisamos de mais 3 doadores, ou R$ 150 reais, para garantir uma impressão de 100 exemplares. Se você fizer uma doação com esses 150 reais (anual), te enviaremos de pronto as primeiras 3 edições do fanzines (estão esgotadas, serão impressas só para isso).



