Pausa para hidratação
Notas sobre a copinha da fifinha e o futebolzinho a que nos acostumamos
O texto a seguir foi publicado em espanhol na última quarta-feira (1) na coluna BRASIL VISCERAL, no Desinformómonos/Fuera de Lugar (México).
Se você lê em espanhol, recomendo a leitura do portal, que tem uma diagramação muito bonita. Clique aqui para acessar.
Caso contrário, segue a tradução.
Acompanhamos uma copinha do mundinho, organizada pela fifinha nos estadinhos unidinhos de Donald Trump e da ICE. México e Canadá são sedes completamente marginais aos olhos do mundo nesse evento global que demarca o processo de americanização do futebol. Se nas copas do Brasil (2014), da África do Sul (2010) e outras, a Fifa aprovou leis que a permitiam passar por cima das próprias leis dos respectivos países, com a gangue do Norte é diferente.
Acompanhamos nas últimas semanas, em nossos nossos celulares, pelas redes antissociais do Vale do Silício, algumas notícias vergonhosas. Por exemplo o melhor árbitro africano, o somali Omar Artan, ter sua entrada barrada na sede do mundial pelas lamentáveis políticas migratórias do aspirante a ditador local.
Vimos seleções nacionais, como a senegalesa ou a uruguaia, passando por revistas vexatórias por parte das autoridades dos Estados Unidos. País que, inclusive, iniciou uma agressão militar ao Irã meses atrás, atacando-o primeiro com a parceria de seu satélite no Oriente Médio. Mas não sofreu as mesmas sanções esportivas internacionais da Rússia, logo após invadir a Ucrânia. O próprio aliado americano no oeste da Ásia perpetra uma matança de palestinos a décadas e segue competindo apesar de alguns boicotes pontuais. Não existe isonomia. O futebol devia ser o esporte da paz e da diversidade, mas isso só vale em alguns casos.
Os EUA de Trump ainda puniram os atletas iranianos. Mesmo o futebol sendo diverso e permitindo a diferença, a seleção persa (composta por futebolistas, não por soldados ou agentes do serviço secreto iraniano) não pôde pernoitar nos EUA. Tinha de fazer viagens surreais de ida e volta entre o país onde podia dormir (México) e o país em que devia se apresentar (EUA), atropelando preparações, aquecimentos, ambientações e se estressando nas filas de averiguação nos aeroportos antes das incômodas viagens.
Vimos ainda, um infame Gianni Infantino, principal figura de uma Fifa esfacelada, proibir a camiseta do Haiti com referências à independência do país, por “mensagem política”. Tudo muito lamentável. Uma ofensa ao próprio jogo, para não falarmos de outros aspectos.
“Não sou modelo”
O Uruguai caiu na fase de grupos após uma atuação apagada e falhas do eterno goleiro Muslera. Mas seu treinador, o argentino Marcelo Bielsa, deixou marca suficiente naquilo que realmente importa sobre o futebol: o próprio futebol.
Em sessão oficial de fotos do mega evento da Fifa, “el loco” Bielsa, que de louco não tem nada, foi fotografado com a cabeça baixa. Questionado por jornalistas sobre a pose incomum, deu uma resposta simples e sincera, mas que soou como afrontosa ainda que não fosse: “Não sou modelo”, “tem coisas que não precisam de explicação”.
Sim, senhoras e senhores, a vida é mais simples do que o turbilhão de luzes artificiais a que nos acostumamos. E num mundo completamente enlouquecido, o apelido de “louco” acaba sendo presenteado para quem apresenta alguma sensatez.
Bielsa tem uma história incrível no futebol, mas decepcionou nesse mundial. Ainda que o Uruguai não estivesse entre os favoritos, esperava-se um pouco mais da Celeste Olímpica. “El Loco” jamais tentou esconder que odeia tudo a respeito desse mundial. Sua fala vai na contracorrente.
O “menino” Neymar
Acreditem, leitores não brasileiros: Neymar ainda é tratado no Brasil como um “menino”, e a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) aparentemente é a sua “Terra do Nunca”, onde é permitido não amadurecer – e aqui não falo dos seus problemas conjugais ou opiniões políticas, mas de bola.
Há toda uma ala de jornalistas esportivos e comunicadores de internet brasileiros que se esforçam para demonstrar reverência e bajulação ao “atleta” que faz duas ou três temporadas não apresenta uma sequência digna de bons jogos.
Depois de adquirir a antipatia dos torcedores do Paris Saint German, Neymar passou uma temporada no campeonato saudita e então voltou ao Santos, seu clube de formação, em 2025. Este também é o clube de Pelé, o maior futebolista da história. No auge da seleção brasileira, lá nos anos 60, dizia-se que o Brasil emulava o time do Santos. Hoje o Peixe (apelido do clube litorâneo) tem suas finanças sugadas pelos altíssimos contratos de Neymar, que pouco resolve em campo, e luta contra o descenso no Brasileirão.
Ainda que nos últimos anos não tenha tido grande êxito, o “menino” tem talento. Não é por acaso que está repleto de prêmios e recordes individuais ao longo da carreira, especialmente na seleção brasileira. No entanto, faltam os prêmios coletivos que a seleção sempre teve e que faz algum tempo não vislumbra. Afinal de contas, mesmo com a americanização, o futebol ainda é um esporte coletivo.
Essa dicotomia neymariana é a base do futebolzinho atual. Quando importam mais os prêmios individuais, o futebolista se torna um influencer, popstar ou modelo. Com o coletivo em segundo plano, também fica para depois o pertencimento, o amor à camisa e o desejo de construir algo que não dá retorno instantâneo.
O que vale mais no fim das contas: um lance plástico finalmente acertado que será reproduzido ao infinito nas redes com direito a meme da CazéTV, ou a busca incerta (e muitas vezes dura) por uma taça que talvez não chegue e resulte numa derrota histórica? Se o parâmetro for o media training ou os planos de carreiras do futebolzinho atual, creio que a resposta é fácil.
Não por acaso, Neymar antecipou sua convocação nas redes antissociais, atropelando o próprio Carlo Ancelotti e a CBF para, após o anúncio oficial, compartilhar uma série de propagandas de casas de apostas digitais conhecidas no Brasil como “Bets”, enquanto era festejado por atletas, dirigentes e jornalistas que aparentemente não assistem mais ao jogo faz algum tempo.
Pausa para hidratação
Numa quadra da história em que os call centers e a Inteligência Artificial do Vale do Silício consomem nossa água, agora a Fifa impõe a tal “pausa para hidratação” na metade de cada tempo. A medida causou uma série de polêmicas esportivas. Há quem aponte a importância de se hidratar, há quem diga que a quebra do ritmo dos jogadores pode prejudicar o jogo e causar lesões. Não vamos falar sobre isso, mas sobre o efeito em nós mesmos, os meros mortais que ainda amam o futebol.
Se antes tínhamos um intervalo esportivo, de 15 minutos, entre os dois tempos; agora o jogo passa a conviver com mais dois intervalos, de poucos minutos, é verdade, só que de caráter estritamente comercial.
Os jogadores bebem a água que já bebiam com a bola rolando e você, torcedor e produto ao mesmo tempo, será bombardeado pelos anúncios dos parceiros do evento ou do canal de transmissão pelo qual está assistindo. No caso do Brasil, veio bem a calhar para as “Bets”, responsáveis por um recente e específico endividamento da população, assim como pelo recente e específico financiamento do futebol brasileiro.
Todos os clubes do Brasileirão são patrocinados por alguma “Bet”. A CazéTV, canal de YouTube que desbancou a poderosa TV Globo na transmissão da Copa, agora é investigada pelas autoridades por supostamente orientar seus narradores a estimularem as apostas dos seus patrocinadores. Na ponta da sociedade, pipocam notícias de famílias entrando em bancarrota, apostadores se suicidando e especialistas dizendo que o vício em apostas esportivas pode se tornar doença. Cada um de nós conhece exemplos vivos dessa nova epidemia.
Mas num mundo cada vez mais enlouquecido, onde o futebol, os salários e a própria vida valem cada vez menos, as pessoas terminam mais vulneráveis às promessas vazias de lucro fácil das casas de apostas. Sobretudo quando o argumento principal aponta que esses ganhos poderiam se transformar em renda.
Isso gera dois efeitos: o primeiro faz com que o consumidor de “Bets” fique ininterruptamente ligado – sem pausa para hidratação – nos conteúdos relacionados às apostas; o segundo, durante o jogo, vem com os comentários sobre as “odds” do dia. “A virada tá pagando tanto, a hora é agora!”. E assim está feita a armadilha das “Bets”, que enriquecem a si mesmas e aos influenciadores usam suas imagens públicas para vender esse “sonho”.
A palavra “pausa”, que antes sugeria um respiro, algo contemplativo ou reflexivo, agora é a deixa para mais consumo acelerado. São tantas “odds” para calcular que o que menos importa é o jogo. Todos saímos derrotados.
Futebolzinho
O futebol que aprendemos a gostar virou isso. Não que houvesse um passado idílico ou romântico em que o futebol estivesse fora dos marcos da indústria alucinada do capitalismo. Mas havia, sim, disputa em cima disso. Havia gente, povo, liberdade nas arquibancadas.
Eu amo futebol e adoro a Copa do Mundo. Estou torcendo, como bom torcedor do Palmeiras, para Endrick e Danilo trazerem o Hexa para o Brasil. Não é fácil escrever essas palavras. Tenho uma relação emocional com a Copa. Durante os anos 1990 ficava o ano inteiro pensando na Copa com os álbuns de figurinhas. Eram bem acessíveis. Hoje, para completar a presente edição, a criança precisa consumir alguns meses de salários dos pais, provavelmente trabalhadores precarizados. O futebol nos faz sorrir desde pequenos, e seguirá nos fazendo sorrir. Mas tem custado cada vez mais caro.
Além disso, como já adiantamos, cria cada vez menos pertencimento, amizades, laços comunitários. Clubes populares de todo o mundo se orgulham de terem construído seus próprios estádios com o esforço das suas gentes nos seus territórios e bairros. Hoje inverteu.
Assim como as pausas para hidratação ilustram certa inversão de prioridades e o “menino Neymar” a exemplifica, os novos estádios demarcam uma inversão social e territorial no futebol. Agora as novas arenas são empurradas à base de porrada, polícia, tiro, desaparecimento, especulação e despejo goela abaixo das comunidades.
Importa tudo, menos o futebol: eis a americanização de nosso jogo. A bola pode parar, o consumo desenfreado não! Quem se importa somos nós, os torcedores.
Convido todxs a conhecerem a ERRE.DISTRO. Antes era uma singela loja virtual onde eu vendia meus livros e discos. Agora ela virou um selo independente.
No segundo semestre vou lançar, via ERRE.DISTRO, dois LPs de bandas muito interessantes do cenário independente brasileiro, além de continuar vendendo as minhas produções e a de outros artistas independentes parceiros.
Dá um pulo lá pra conferir e, se algo te chamar, leva pra casa! Você estará apoiando diretamente esses lançamentos e vai ficar com algo maneiro que algum artista/músico/escritor real, de carne e osso, produziu.



